Marcus sempre diz que eu sou sentimentalista, que esse meu lado humano ainda me mata, mas talvez isso sirva para lembrar-me de minha condição de um dia… um humano que amou, sofreu, chorou…
Parece que sempre que escrevo no blog, sempre conto algo sobre sentimentos… não? Talvez esse seja mais um então.
Todos os que acompanham meu blog sabem que eu gosto muito de caminhar à noite, observar a vida humana e, mais uma vez me surpreendo com a fragilidade das pessoas e a maneira que elas querem se mostrar fortes para não transparecerem a fraqueza. Muitas vezes para eu conhecer sentimentos, desejos, anseios dos humanos, eu entro na mente deles, sem que eles percebam e vejo isso.
Bom, vamos ao ocorrido. Eu estou me mudando de cidade e, portanto, passo a maior parte do tempo aqui nesta nova morada enquanto meus serviçais tomam conta da papelada para a transferência. E nesse entremeio, sempre costumo sair pela noite, fazendo sempre as mesmas coisas… observando. Em uma dessas noites, me chamou a atenção uma linda mulher com cabelos negros, olhos verdes penetrantes, pele amorenada, lábios deliciosos, corpo escultural, realmente uma bela mortal. Eu passei a acompanhá-la ao longe, sem que ela percebesse. Comecei a ver que ela era sociável, gostava muito de sair, curtir baladas, nunca bebia nem fumava, tinha um namorado de uma cidade próxima e algumas vezes era visitada por ele ou ela mesma ia para a tal cidade atrás dele. Mesmo na condição de compromissada, nunca deixou de… como os mortais dizem… “ficar” com outros homens. Muitas vezes passava muito disse e ela terminava na cama com eles.
Outros humanos a viam como uma mulher fútil, fácil e simplesmente não sentiam nada por ela além de desejo, vontade de tê-la em suas camas, para que no dia seguinte deixem-na e tenham o que contar a outros humanos o que aconteceu, contar vantagem, enfim…
Mais uma vez me lembro das palavras de Marcus, que me diz para não me importar nunca com isso, porque os humanos são fúteis, se apegam a coisas fúteis e que parecem estar sempre se esquecendo de sentimentos, estão se tornando frios como nós sem serem vampiros.
Parece loucura, mas me senti atraído por ela. Não no sentido de amar tal mortal, mas no sentido de querer entendê-la, protegê-la.
Em uma dessas noites que eu estava observando-a decidi que deveria me aproximar. Ela estava na fila para entrar em mais uma “balada” muito conhecida na cidade. Usando de minhas habilidades, entrei também no local. Era uma antiga casa, pelo que se percebia pelo formato do local, embora não conservasse os cômodos de uma. O que deveria ser uma sala ampla foi transformado na pista de dança. À esquerda desta, havia
uma entrada para o camarote, embora pequeno, assim o era. À direita, descendo por alguns degraus, ficava o bar e logo à frente deste, um local amplo, com alguns pequenos pufs, onde as pessoas sentavam para descansar, namorar…
Algum tempo depois de entrar, ela seguiu para a pista de dança, onde o DJ estava tocando um estilo de música… como dizem… eletrônica. Muitos bebiam, riam, dançavam, mas desta vez ela parecia estar sozinha embora dois humanos a olhassem e comentavam entre si. Não precisava nem ler a mente deles para saber como viam-na. Eles beberam muito, misturavam uísque com energético para “ficar legal”, pagaram bebidas para os “amigos”…
Nós escolhemos nossas vítimas não aleatoriamente, temos que seguir um padrão para não deixarmos pistas e, fazemos isso para nos alimentar, em muitas vezes não gostamos do que fazemos, mas é necessário e muitas vezes entramos em frenesi e saímos caçando sem critérios, o que pode ser perigoso. Mas esses humanos a vêem como mais uma “mina” que vão se aproveitar, zoar e contar para os amigos, como vantagem, só por diversão, não por necessidade.
Ainda continuei observando ao longe, quando um deles pareceu fazer uma aposta com o outro que sorriu e finalmente apertaram as mãos. Um deles se dirigiu para a garota que dançava no meio da pista. Ele se aproximou por trás e seguindo os movimentos dela, segurou-a pela cintura. Ela simplesmente deu uma olhada de soslaio e sorri, continuando a dançar.
Quando a música acaba, ele virou-a para ele e puxou-a para mais perto, beijando-a. A garota deu um empurrão no garoto e saiu da pista. O garoto olhou para o outro fazendo sinal com as mãos, querendo dizer que não sabe o que aconteceu enquanto o outro simplesmente riu.
Eu a vi se dirigindo para o banheiro feminino, permanecendo ali por alguns minutos e quando finalmente saiu, o rapaz estva no lado de fora esperando. Ele a pegou pelo braço, ela puxou lançando-lhe um olhar furioso, virou as costas e seguiu para um dos sofás ali perto sentando
sozinha.
Mais uma vez me atenho a observar nas sombras e escutar a conversa deles… o diálogo eu me lembro de praticamente tudo, mas descreverei apenas o essencial para que vocês entendam as atitudes…
“… Mas Fernanda, eu sei que você gosta disso… eu sei…” Insistia o rapaz, enquanto ela olhava para o nada e finalmente respondeu: “Não Rafa, você não me entende, você… não, não é assim como pensa…”, mais uma vez o rapaz insistiu e desta vez em um tom mais agressivo, enquanto o outro se aproxima… “Fernanda, você vai embora comigo e com o Pedro, mesmo que tenhamos que te arrastar”
O tal Pedro estava junto deles, com os braços cruzados, balançando o pé e com um sorriso malicioso nos lábios.
Ela olhou para ambos, colocou-se em pé e disse: “Tá bom, eu vou, mas só vou de carona com vocês e nada mais…” dito isso o tal Rafa abraçou-a pela cintura e ainda consegui ouvir quase como um sussuro, o garoto dizendo: “Você é quem pensa”.
Ah Marcus, como queria que você estivesse lá naquele dia, acho que se divertiria muito com esses dois aloprados. Dois recém saídos da adolescência, mortais bonitos, roupas de marca, tênis caros, provavelmente ricos, mas extremamente fúteis. Julgando-se ”predadores”, “pegadores” de mulheres, ridículos! Saem à noite para “curtir”, pagam uma nota em bebidas para ficarem valentes para encarar as mulheres,
muitas vezes pagam bebidas, champagnes, garrafas de uísque, para serem sociáveis, mas não percebem que estão sendo sugados, usados por aqueles que os rodeiam…
Eles sairam juntos e, da mesma maneira que havia entrado, saí sem ser notado.
Eu me coloquei acima do telhado de um posto de gasolina, logo à frente da balada sem ser notado pelos jovens bêbados que ainda estavam lá fora, com seus carros, som alto, bebendo, “curtindo a noite”.
Os dois e a menina seguiram subindo a rua paralela à casa noturna, chegando a frente a um estacionamento, onde Rafael puxou sua carteira, deu uma nota de 10 reais ao guardador de carros enquanto Pedro seguia para o carro de uma marca importada, cor preta… por sinal um belo carro que serviria muito bem para mim.
Rafael apertou o botão do alarme fazendo as portas destravarem. “Entra aê Fer…” Disse Pedro, abrindo a porta de trás do carro para a moça e entrando logo depois. O outro sentou no banco do motorista, deixando o banco do passageiro livre. O carro preto com insulfim extremo deixara o estacionamento seguindo por algumas ruas de trás, sendo acompanhado por mim.
Eles rodam por algumas ruas desertas, não param para nada até que seguiram para um conjunto de casas que compõem a entrada de uma plantação de Cana de Açúcar. Entrando por um grande portão, a rua que dá acesso à usina é extremamente escura, o que facilitou ainda mais para mim a minha observação.
Rafael encostou o carro em uma parte gramada que fica ao lado da rua, entre duas árvores. Abriu a porta do carro que iluminou o interior e desceu, dirigindo-se para a frente do automóvel, onde abriu o zíper da calça e começou a urinar.
Notei Fernanda dizendo algo… “Eu quero ir para casa”, Enquanto Pedro tentava agarrar a moça à força… “Ah Fer, daqui a pouco a gente leva você… seja boazinha vai…”. Rafael voltou e abriu a porta de trás e entrou no carro, deixando a moça entre os dois. “Eu quero ir embora” ela disse assustada. “Você só vai quando nós dois pegarmos você!” Rafael disse pulando em cima dela enquanto Pedro ria alto, nitidamente embriagado.
A moça conseguiu empurrar Pedro e sair do carro, correndo assustada na escuridão, enquanto os dois saiam do carro rindo muito, quase caindo na rua… “Fe-er… onde você está indo? Sabe que não vai chegar em casa sozinha… vem cá meu amor…” Disse Rafael olhando em volta, tentando localizar a bela dama.
Pedro encostou-se em uma árvore, abaixou-se e começou a regurgitar a bebida ingerida. Um cheiro azedo percorreu minhas narinas enquanto observava Fernanda correndo apavorada, sem saber o sentido correto da saída.
Por vezes é muito interessante ocasionar uma perseguição às nossas vítimas, porque parece que a adrenalina que é liberada no corpo de tais, nos proporciona maior prazer na hora da alimentação. É como deve se sentir um gato, correndo atrás de um rato, quando finalmente consegue encurralar e se alimentar do roedor. Ou qualquer outro predador de maior tamanho… imaginem um leão, leopardo, quando consegue sua presa, após exaustiva insistência e perseguição…
Mas aquela não era uma perseguição de vampiro a uma vítima, à espera de se alimentar. Aquilo tratavam-se de dois idiotas, bêbados, correndo atrás de uma mulher, para tentar estuprá-la. E por mais uma vez me lembro de Marcus, que certamente diria “Isso não é problema seu… essas coisas sempre acontecem e nós nunca nos intrometemos ”, mas por mais monstruoso que eu seja, nunca deixei de apreciar a vida humana, sendo como vítimas ou simplesmente tendo lampejos de minha mortalidade, quando pude amar, sofrer, sorrir… lembram-se do que disse acima?
Eu sai da escuridão que estava e talvez nem precisasse ficar escondido, já que ambos estavam tão bêbados que poderiam passar por mim sem me notar. Mas fiquei no meio da rua, olhando para a mulher que corria para a minha direção enquanto os outros dois bêbados gritavam por ela. Não sei se por medo ou pela escuridão extrema ela passou por mim sem perceber. Simplesmente deixei-a passar.
Um carro vinha subindo ao longe, mas já era perceptível a luminescência do farol alto iluminando o caminho à frente e o som que o motorista ouvia tornava-se mais audível. Os dois garotos perceberam o carro se aproximando rápido. Olharam para trás, saíram da rua e quando retornaram a perseguição, ao olharem para a frente, deixei que Rafael notasse minha presença enquanto pulava o carro e sumia novamente na escuridão. Ele achou-se bêbado demais para acreditar no que tinha visto, mas foi nesse instante que pulei atrás de Pedro, agarrei-o e tampei sua boca, para que não fizesse barulho. Lentamente arrastei-o em direção ao amigo dele, parado encostado em uma árvore, tentando entender o que havia acontecido.
O local era muito ermo e escuro, mas como que por magia, a lua cheia brilhou no céu, antes encoberta por algumas nuvens, iluminando minha face, meus olhos rubros brilhantes e Pedro de costas para mim, tremendo…
Certamente eu aprecio tais momentos de terror, quando eu noto que minhas vítimas tremem, apavorados, imaginando que eu sou algum ladrão, terrorista, assassino… chego mesmo até a rir e esse foi um dos momentos de risadas. “O-o-o que você quer?” Dizia Rafael, nitidamente apavorado, já que a bebedeira havia passado com a carga de adrenalina no sangue (delicioso momento). Eu puxei o pescoço de Pedro e lentamente passei minha unha no pescoço dele, deixando correr um fio de sangue, apavorando mais ainda o amigo que se assustava cada vez mais. Novamente sumi na penumbra da noite.
Rafael estava estático, com a mão na boca e, de repente passou a vomitar intensamente. Logo ele parou e estava voltando ao carro, quando apareci em sua frente com a boca cheia de sangue. O susto o fez cair ao chão, tentando correr, se levantar, sair dali…
Mais uma vez me deliciei com o momento de vê-lo correndo sem saber para onde, sem direção, gritando por socorro, sem ser ouvido.
Mais alguns instantes e eu finalmente apareci em sua frente dele desferindo o golpe final. O sangue, cheio de adrenalina também tinha o gosto do medo, de álcool ingerido com energético…
Finalmente deixei o corpo seco cair ao chão e, após as providências cabíveis, segui subindo a rua, devidamente provido de energia que me proporcionou velocidade para achar Fernanda ainda perto da entrada do local.
“Parece apavorada moça? O que te aconteceu?” Disse eu suavemente, para que não assustasse mais ainda a moça. Ela não me disse nada, simplesmente veio em minha direção chorando muito, assustada com a atitude dos dois dizendo haver ouvido um grito pavoroso atrás de si
enquanto corria. Sim, ela havia ouvido sim, quando eu permiti que Rafael gritasse.
Eu a acalmei e a mantive em meus braços recostando sua cabeça em meu peito aquecido pela ingestão do sangue enquanto acariciava seus sedosos cabelos negros.
Sempre odiei que humanos se aproveitassem de outros… como disse… nós não nos aproveitamos, necessitamos de alimento. Digo por mim, que por vezes me alimentei de animais para não sacrificar humanos, mas sempre que assim foi necessário, soube como e quais escolher.
Acompanhei Fernanda até a sua residência, disse que ficaria tudo bem e que se precisasse eu a levaria para uma delegacia, mas ela insistiu que não precisava, que eles estavam bêbados, mas eram amigos…
Eis que no dia seguinte, acharam o corpo de dois rapazes no mato próximo à usina de álcool, com marcas aparentes de facadas no abdome, marcas de luta, o que disseram ser um assalto. As vitimas haviam reagido e morreram.
Você deve se perguntar, caro amigo leitor: “Assalto? Como assim? Como marcas de facada?” E eu respondo à vocês… As marcas de minhas presas são facilmente disfarçadas porque podemos simplesmente usar nossa saliva para fechar e cicatrizar em segundos, sem deixar cicatris
Foi considerado assalto porque eu sumi com o carro. Marcas de faca? Ora essa, o que explicaria a perda de sangue? Exatamente, eu mesmo as fiz… perfeitas não?